Opinião

Edição nº1361 – quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Amazônia em chamas

Celso Evaristo Silva

Empregado do BNDES;diretor institucional da AFBNDES

O dilema do que fazer com a Amazônia remonta a séculos. Desde os estudos de Alexander von Humbold (1769-1859) sobre a região equatorial do continente americano, a curiosidade do ocidente focou a região, cujas riquezas inexploradas despertavam a cobiça de comerciantes, aventureiros e o interesse de diversos países. Em pleno século XIX, o governo norte-americano apoiava a exploração da região por empresários dos EUA.

O Império brasileiro adotou uma atitude moderada, porém firme diante das pressões para liberação aberta da exploração econômica da Amazônia. D. Pedro II, após elevar o território à condição de província, aprovou a criação de uma companhia de navegação fluvial pelo Barão de Mauá, com a condição de fundar colônias agrícolas ao longo do rio Amazonas.

As leis de criação da província do Amazonas e da abertura do rio à navegação a vapor são de 5 e 6 de setembro de 1850, respectivamente. Elas permitiram ao país implantar o início da estrutura administrativa na parte ocidental da região, com cobrança de impostos, estrutura judiciária e policiamento de rios. O primeiro presidente da província, nomeado pelo imperador, foi o deputado paraense João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha.

No final do século XIX e no início do século XX (1879-1912), se dá o Primeiro Ciclo da Borracha na Amazônia, quando surge a indústria automobilística no hemisfério norte, potencializando o uso da borracha, obtida a partir do látex da seringueira, árvore originária da Amazônia. O látex era obtido em áreas distantes e trazido, por via fluvial, para Manaus, de onde saía para a Europa e os Estados Unidos. A produção/exportação de látex entrou em decadência após os ingleses contrabandearem mudas para o sudeste da Ásia. Foi um dos maiores casos de biopirataria da história. Elas foram plantadas no sistema de plantation (monocultura) na região da Indochina – Vietnam, Laos e Malásia, onde a seringueira obteve excelentes resultados em qualidade e escala. A produção asiática inundou o mundo de borracha e o preço caiu, pondo fim ao ciclo da borracha brasileiro. A Amazônia, que chegara a produzir 95% da borracha mundial, em 1928 atendia a apenas 2,3% da demanda global.

Durante a República Velha, os interesses internacionais seguiram duas linhas básicas: a concessão de empréstimos ao governo brasileiro mediante autorização para grupos estrangeiros explorarem economicamente a área; e a realização de pesquisas científicas aliadas ao comércio fluvial. Grupos japoneses, americanos, poloneses obtiveram autorização para praticar a navegação fluvial, implantar pequenas indústrias, serviços bancários etc.

Várias foram as tentativas de exploração econômica da Amazônia, algumas fracassaram totalmente, outras tiveram algum retorno: os projetos de Henry Ford (1863-1947) e o Jari, do milionário norte-americano Daniel Ludwig (1897-1992), a construção da Transamazônica, esperança de integração regional e nacional etc. A floresta, cedo ou tarde, sempre acaba reocupando seu espaço ou regenerando suas ‘feridas’, não sem marcas profundas da agressão sofrida.

Projetos de colonização durante os governos militares propiciaram a migração de nordestinos e agricultores sulistas em direção à Amazônia e ao Cerrado. O processo de ocupação a qualquer custo, à guisa de integração do espaço amazônico ao restante do país, iniciou os conflitos fundiários que persistem até os dias atuais, envolvendo os povos da floresta, garimpeiros, madeireiros, fazendeiros e grandes corporações ligadas à extração de minérios. Na realidade, a Amazônia tem se tornado uma "terra de ninguém".

Mitos e lendas formaram-se sobre a natureza daquele espaço geográfico imenso. O primeiro deles é que a Amazônia seria um gigantesco "tapete verde" de florestas compostas por enormes árvores. Sim, isso existe, mas ela é composta por inúmeros ecossistemas com suas respectivas áreas de interseção: altiplanos de vegetação rasteira, médio cerrado, florestas de terra firme, florestas estacionais, matas de igapó, campos alagados, várzeas, savanas, refúgios montanhosos, dentre outros.

Outra pseudoverdade repetida por anos é a referente à fertilidade do seu solo. O juízo apriorístico era o de que somente solos muito férteis poderiam sustentar uma floresta tão exuberante. Sabe-se, hoje, que boa parte do solo amazônico é laterístico, ou seja, raso, pobre e frágil; a floresta vive do húmus por ela mesma produzido. Uma vez removido o manto vegetal, a lixiviação provocada por chuvas e ventos provoca sua rápida erosão. A desertificação, ou savanização, como querem alguns, já é observável em muitas áreas do bioma. Falou-se muito sobre ser a Amazônia o "pulmão do mundo"; não é bem assim. A própria floresta consome à noite grande parte do oxigênio produzido durante o dia, porém o papel de "ar refrigerado" talvez seja mais adequado. Rios aéreos de umidade, além de trocarem calor com camadas de ar quente da atmosfera, percorrem vários biomas brasileiros impactando os sistemas de chuvas de outras regiões, fator de extrema importância para a agricultura e o abastecimento dos sistemas hídricos.

Vista do alto a floresta amazônica aparenta ser homogênea. Essa monótona aparência aérea, no entanto, não corresponde à extrema heterogeneidade de sua biodiversidade verificável por quem se predispuser a estudá-la no chão. Ela pode favorecer a coleta de produtos silvestres e outras formas de extração, desde que sua complexidade seja respeitada e preservada. A sustentabilidade não é mero condicionante para a exploração econômica da Amazônia; é um imperativo categórico para a viabilidade de qualquer empreendimento a ser feito por lá.

Extração racional de madeiras, reflorestamento de áreas degradadas, produção industrial tendo por matéria-prima elementos da região – babaçu, açaí, juçara –, ecoturismo, estudo de fármacos etc. são algumas alternativas de atividade econômica passíveis de conviver com a necessária preservação da floresta e dos seus habitantes. Grilagem, garimpo ilegal e o contrabando de pedras preciosas, derrubada indiscriminada de árvores, queimadas e pecuária extensiva são o passaporte para o inferno a ser criado na Amazônia Legal, cujos efeitos deletérios serão sentidos em escala planetária.

Infelizmente, o medo anacrônico e imaturo de perder a Amazônia pode ser usado como pretexto para sua ocupação a qualquer custo, encobrindo a cobiça e a irracionalidade criminosa dos agentes envolvidos na exploração predatória da região.

 

Movimento

Dia de lutar pela floresta amazônica e pela vida

Opinião

Carecas por Paulo Moreira Franco

Opinião

Charge de Nelson Tucci

 

COLABORAÇÕES

Colaborações podem ser enviadas para a redação do VÍNCULO - Av. República do Chile 100, sobreloja/ mezanino, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP 20139-900 - ou através do e-mail vinculo@afbndes.org.br. As opiniões emitidas nos artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da AFBNDES e do BNDES.