Opinião

Edição nº1360 – quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Carecas

Paulo Moreira Franco

Economista do BNDES

"somos 'maiorais',

Pois na hora do aperto,"

(Anjos do Inferno)

Armínio deu uma entrevista pro Valor; Armínio, que na quarta-feira havia publicado um artigo sobre o Banco, artigo este escrito em parceira com um dos dois carecas que comandaram o planejamento do Banco no governo Golpista do marido de Marcela, artigo rebatendo uma defesa do BNDES feita pelo Stiglitz. Não vou esmiuçar os dois, pois isso tomaria páginas e páginas, mas vou destacar um ponto: que graça que é ver o cara que seria o Mantega (sim, porque Joaquim foi surpresa) do Aécio repetindo o papinho sobre corrupção como se nada tivesse acontecido e acontecendo. Num momento de Vaza-Jato vir com "Parece que está se firmando a opinião de que, infelizmente, houve exageros" em relação à Lava-Jato é do cinismo de quem não fez nenhuma autocrítica severa sobre "tem que ser alguma conta no Liechtenstein que a gente mate antes de fazer delação".

Lembro que unindo Botafogo e Gávea há o Jardim Botânico, e saindo Jair o que querem Globo e Maia é Armínio. Vocês acham que isto é um progresso em relação a Paulo Guedes? Você, benedense, se sente mais ou menos seguro se Armínio e Carrasco vierem a conduzir nossos destinos? Leiam o artigo, está no clipping, quarta-feira, 28/8.

O que é um banco, por que Basileia, qual a razão da carteira da BNDESPAR ser da forma que é? Três perguntas que Lalone, um belíssimo exemplo de que pessoas que lidam com verdinhas podem ser bons exemplos da green lumber falacy (lembram do BNDES antifrágil?), pelo visto não atenta em detalhe.

Um banco (pelo menos no imaginário de Carrasco e cia) é uma instituição que converte disponibilidades de curto prazo, como depósitos, em operações de longo prazo (como empréstimos). Quer dizer, costumava ser isso no século passado: a história dos noventa pra cá é bem mais complexa. Pra que esse descasamento da insustentável leveza dos balanços bancários numa finança globalizada em conflito com atavismos – como horários de funcionamento regulados pelo Sol, dias úteis e leis locais votadas por parlamentos eleitos pela população local – não desse encrenca num mundo com mobilidade crescente de capital, coisas como as regulações de Basiléia foram criadas.

Perguntem-se: se nosso passivo é composto por dívida em relação ao nosso controlador, uma tal de União; em relação a um fundo constitucional da tal da União; em relação a outros fundos públicos, também da União; em relação a organismos internacionais com garantia da tal da União; e uns querequequés de bonds internos e externos... me diga: os ativos de quem são passivos do Banco defendidos por estar ele dentro dos limites de Basiléia? Essa é uma conformidade exibicionista, que não acrescenta nada.

Mas e a carteira da BNDESPAR e a volatilidade que ela traz? Sim, qual o problema? Por acaso ela demanda alguma movimentação de caixa em sua flutuação – a menos de alterar dividendo e I.R. por conta de marcação a mercado – que possa comprometer o funcionamento do Banco? Se esta é uma carteira hold to sabe-se-lá-quando, qual o problema? Bem, se o impacto de ter ou não tê-la não afeta a funcionalidade do Banco, Lalone tem razão em afirmar que ela deveria ter um propósito – já que somos um banco de desenvolvimento.

No meu entendimento pessoal, tem. Petrobras, Vale, JBS, Eletrobrás tem uma coisa em comum: todas auferem quase-rendas (vulgo rents, para engenheiros que só estudaram o assunto em inglês) por suas situações de monopólio em commodities. E aqui vai uma pequena explicação cotidiana para não economistas: os ganhos e perdas da Petrobras dependem mais da flutuação do preço do petróleo do que de sua eficiência. Num certo sentido, ela opera com vantagens competitivas, isto é, opera fora do custo marginal. Isso é bastante mais raro de acontecer com o setor manufatureiro ou setores de comércio e serviços, por exemplo. O preço de carros, cortes de cabelo e serviços de engenharia não flutua da mesma forma sob os humores das marés do mercado internacional. Portanto, essas ações nas mãos da BNDESPAR são uma forma do Estado brasileiro poder se apropriar desses ganhos que esses monopólios têm por algo que decorre não propriamente do investimento e inventividade dessas empresas, mas de suas condições de proprietários únicos, monopolistas, de determinadas posições. Possibilidade de influir de forma inteligente nas decisões de alocação de seus ganhos extraordinários, por exemplo.

Campeões nacionais, diga-se de passagem, se justificam exatamente porque possibilitam esses ganhos em outros setores onde isso é mais difícil. Se eles são combatidos cá é porque há outros monopólios que têm seu poder relativo de corromper a sociedade diminuído por eles. Qual seja: tanto o setor financeiro, quanto o agronegócio, quanto as redes de comunicação, são setores protegidos pela lei, criados por uma construção jurídica de propriedade sobre algo que não é produzido. Mas esses campeões não são atacados, como de fato não foram os cartórios na MP de liberdade econômica. A economia liberal neste pais pode até ter ido a Chicago, mas pelo visto sempre se manteve longe da Virgínia.

Mas tem outra coisa ali no Armínio: o papo da democracia em risco, a crítica ao populismo. A ideia de que o eleitorado tem que votar dentro dos costumes civilizados de uma determinada elite, seja acadêmica, seja proprietária. A ideia que certos direitos são inatacáveis (o de se aposentar, pelo visto, não é um deles dentro desse modelo). Sorry, democracia é o ostracismo votado na ágora. Armínio e muitos outros querem conectar a ideia de democracia à defesa absoluta dos direitos da ordem neoliberal. Sorry, mesmo a pequena-burguesia dos lugares esquecidos do mundo desenvolvido se insurgiu contra isso. O lojista da Thatcher votou no brexit. O papinho Mont Pèlerin Society pode ser legal, mas é ordem legal para a soçaite, para os poucos que podem se beneficiar pela mobilidade global do capital.

Neste sentido, um ponto central em se entender o que é um populismo é que este não existe sem vilão, sem oposição, sem uma alta voltagem correndo na sociedade, sem carga e resistência. O populismo de Jair Messias, como Mothra em Godzilla, se alimenta dos ataques que lhe são feitos. Por vezes em ataques fratricidas internos, como no episódio que afeta o outro careca que passou sobre o planejamento. Na simplicidade do seu discurso taxista, na sua incorporação do ressentimento pequeno-burguês – a ira de Calibã na sua relação entre sua face e o espelho – motos e fuscas avançam o sinal vermelho (pois não há mais pardais) e perdem-se os verdes da floresta.

Segunda-feira estaremos discutindo os desafios para 2020. Alguém sinceramente acha que é possível algum crescimento sob as amarras do Teto de Gastos, sob a persistência da tara sadomonetarista do superávit primário? No mundo de 2020 tratava de um mundo com problemas ambientais e de abastecimento. E de uma espécie de reforma da Previdência que se passava por agronegócio.

 

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