Opinião

Edição nº1364 – quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Operações envolvendo o grupo Odebrecht

Posicionamento da AFBNDES em relação à nota do Banco e à entrevista de Montezano ao jornal O Estado de São Paulo

A AFBNDES manifesta publicamente sua insatisfação e discordância com a nota divulgada pela Administração do Banco, bem como a entrevista concedida pelo presidente do BNDES, Gustavo Montezano, ao jornal O Estado de São Paulo, em 30/09/2019, sobre operações envolvendo o grupo Odebrecht. Acreditamos que o trabalho técnico e executivo prometido pelo presidente fica comprometido por seus compromissos com a retórica eleitoral oficial.

Na análise apresentada, para aumentar o impacto de supostos erros, Montezano usa questionáveis métodos de atualização dos valores envolvidos e opta por divulgar a perda máxima (supondo que nada venha a ser recuperado pelo BNDES) ao invés da perda provável nas operações associadas à Odebrecht. Inclui na mesma análise, por exemplo, operações garantidas pelo FGE (Fundo de Garantia à Exportação). Dos R$ 14,6 bilhões alardeados, R$ 3,7 bilhões correspondem a operações de comércio exterior devidamente seguradas pelo FGE – cujo funding é parcialmente proveniente de prêmios de risco pagos pelos próprios países financiados. Em nenhuma análise econômica poderiam ser computados como perdas para o Banco.

Dos R$ 10,9 bilhões que poderiam ser considerados perdas, R$ 9,5 bilhões se devem a um único projeto da Odebrecht apoiado pelo Banco: o que envolvia a empresa de etanol do grupo. Ao considerar apenas a perda máxima da operação de crédito, ignora-se o fato de que o BNDES detém grande parte dos ativos operacionais em garantia, sem contar com as receitas provenientes da venda de energia. Ou seja, excluído o que está com garantia do FGE e assumindo que o Banco deve recuperar 50% dos créditos no projeto de Etanol, o valor da perda seria de R$ 6,4 bilhões, menos da metade dos R$ 14,6 bilhões anunciados.

O BNDES foi apenas um dos vários financiadores do projeto de Etanol, que em sua origem contou, inclusive, com a maioria de investidores internacionais (pois se houve erro na avaliação do projeto, esse foi do governo e de investidores privados nacionais e internacionais também). A Odebrecht e todos os seus sócios internacionais perderam cerca de R$ 7 bilhões com o projeto. É importante ressaltar também que o BNDES desembolsou dezenas de bilhões de reais (valores históricos) com o setor de etanol como um todo, beneficiando dezenas de projetos, indo muito além da citada empresa.

Outro aspecto que não foi abordado nas manifestações para a imprensa e que nos causa estranhamento, principalmente para quem enfatiza a importância do impacto do Banco sobre o desenvolvimento vis-à-vis à lucratividade das operações, é o impacto do projeto sobre a região em que se deram os investimentos – como aumento do emprego, do PIB regional e da arrecadação tributária, mesmo que esses dados estejam disponíveis no BNDES.

Assim, como quando veio a público as "denúncias" relacionadas a compradores de jatinhos por meio de programa realizado pelo BNDES, informando até o CPF dos controladores das empresas, possivelmente violando o sigilo bancário de operações que foram contratadas via bancos privados, são indisfarçáveis os intuitos políticos eleitorais desse novo "esclarecimento".

Na prática, Montezano trabalha para reascender o mito da "caixa-preta". Ao tentar entregar a encomenda que levou à sua nomeação, não se importa em manchar a imagem do Banco. Finalmente, e com efeito não menos nefasto, seus supostos esclarecimentos ao invés de aumentar a transparência do BNDES e promover um debate qualificado sobre o aperfeiçoamento de políticas de desenvolvimento, visam apenas desacreditar por completo a política industrial e a ação do crédito como instrumento contracíclico, servindo, assim, para justificar a redução do escopo de atuação do BNDES que sua administração pretende implementar.

 

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